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Roberto Acioli de Oliveira

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18 de set de 2008

As Mulheres de Pier Paolo Pasolini (V)

Ida


Filha da Burguesia

Em Pocilga (Porcile, 1969), Pasolini intercala duas estórias. Numa delas, lá pelo ano 1000, um canibal segue seus instintos até o choque fatal com o mundo civilizado. Esta parte se chama “orgia”, a segunda parte se chama “pocilga”. Nesta temos um rapaz, Julian, e seu choque fatal com os objetivos materialistas de seus pais e sua namorada. Na primeira estória, o protagonista come carne humana, estupra e mata. Na segunda, Julian faz sexo com porcos. Entretanto, as leis do consumo se revertem nesses dois casos aparentados: o canibal é capturado e morto, enquanto Julian é devorado pelos porcos. Como já sabemos, Julian tem uma namorada. Ela se chama Ida. A partir do espelho que é Julian, é da relação dela com o mundo que vamos falar.

“Um ano depois de Teorema, Pasolini oferece outro exemplo da família burguesa disfuncional e do vazio espiritual na Itália. Pocilga retrata o relacionamento limitado e conformista entre as gerações novas e velhas e a natureza deprimida das relações entre dos sexos dentro delas e entre elas”. (1)

Teorema era ambientado em Milão, na Itália. Pocilga se passa na Alemanha. Julian não consegue decidir sua posição política, enquanto Ida decide sem pensar. Ela é otimista, ele é deprimido e cínico. Segundo Colleen Ryan-Scheutz, a seu modo, a relação de Julian com os porcos é mais autêntica do que a de Ida com seus colegas ativistas políticos. O único traço autêntico de Ida parece ser seu espírito rebelde. Julian representaria o grande perigo da indecisão política, enquanto Ida representaria o destino negativo de uma geração jovem capturada.

Apesar de só conhecermos os pais de Julian em sua elegante mansão, a menina de dezessete anos é caracterizada como uma “filha da burguesia”. Ida está sempre em choque com Julian. Entretanto, ao contrário de Odetta (outra filha da burguesia) em Teorema, Ida se expressa politicamente e enfaticamente em atividades políticas. Devido à influência de familiares conservadores, Ida é uma adolescente inocente com ares de adulta. Ela até parece agir como a mãe de Julian, apesar de mais jovem que ele. Segundo Ida, Julian é um covarde por decidir não comparecer na manifestação em Berlin, que ela organiza com seus colegas politizados. Entretanto, apesar da aparente rebeldia, veremos que Pasolini criou uma Ida cujos sentimentos revolucionários são canalizados para uma adaptação cega aos valores estabelecidos (mainstream).

Em Busca da Autenticidade

Aos dezessete anos, completamente capturada pela agenda estudantil, é difícil para Ida perceber o ponto de vista de Julian. Ele até deixa temporariamente seu refúgio na indiferença para tentar fazer Ida refletir sobre o individualismo dele. Julian pergunta para Ida: “Você pensa que o conformismo possa lançar uma sombra sobre minha eternidade? Você não percebe que minha principal qualidade é continuar imutável?” (2)

Através das afirmações de Julian, Pasolini ressalta a hipocrisia de Ida, apontando para a apatia dele como uma solução verdadeiramente revolucionária.

Julian declara que seu ativismo de antes era fútil, porque no mundo burguês no qual ele vive... “Compreendi que poderia ser um conformista mesmo se eu fosse um revolucionário. No meu sistema planetário, palavras como conformismo e discordância obviamente não existem” (3). Este é o mesmo mundo a que pertence Ida, onde não se presta atenção a essas palavras e no qual suas ações políticas são insignificantes. O brilho de esperança que existia em seu ativismo foi rapidamente esvaziado. Ela vai para a manifestação em Berlin e retorna sem novidades. Ou melhor, ela volta noiva de um estudante chamado puby. O nome dele é uma brincadeira com a palavra inglesa puberty (puberdade, maturidade sexual), acentuando o fato de que Ida prematuramente adotou uma função maternal, assegurando seu destino burguês.

Seja como for, Pasolini coloca Julian e Ida em campos opostos, apontando a perversão sexual dele como exemplo de vida livre. Julian preserva uma aura de mistério ao viver sua vida longe do sistema familiar e até mesmo de Ida. É como se o segredo de Julian fosse uma metáfora para a nova vida – uma essência que não pode ser influenciada por outras. (imagens ao lado e abaixo, Ida e a mãe de Julian disputam quem consegue enxergar melhor o rapaz)

Tornando a verdade inacessível e, quando conhecida, simplesmente impenetrável para os outros, Pasolini denuncia a renúncia do mundo em relação à diversidade, honestidade e alteridade.

A mãe de Julian é desprovida de qualidades vitais. Enquanto esposa burguesa, é isso que ela deseja que Ida seja para seu filho. Papel que Ida gostaria de assumir, não fosse pela relutância de Julian. A mãe de Julian discorda de Ida quanto às qualidades, talentos, interesses e traços de caráter dele. Entretanto, elas não são muito diferentes uma da outra. No final, Ida reconhece isso. (ao lado, Julian em estado catatônico como Odetta em Teorema)

Ela não é capaz de perceber Julian como seu outro modelo possível de individuação, enxergando apenas semelhanças entre a criança rebelde que ela é e a mãe burguesa e conservadora de Julian (4).

Rebeldes Sem Causa

Portanto, uma identidade autônoma é tudo que o futuro não reserva para Ida, a filha da burguesia que será engolida pelo sistema cultural tão silenciosa e completamente que ela não perceberá nem mesmo o quanto seus desejos e ações são perfurados com monotonia e falta de sinceridade. Ida poderia ser uma integrante da geração de 68, para quem Pasolini endereçou O PCI aos Jovens!, poema escrito um ano antes do lançamento de Pocilga. PCI é a abreviação de Partido Comunista Italiano, e o poema é a resposta de Pasolini às manifestações que tiveram lugar na Escola de Arquitetura de Roma. Pretendia-se criticar um sistema educacional velho e ineficiente. Pasolini acusava aqueles jovens comunistas e reformistas de, no fundo, serem tão burgueses e tão conservadores quanto o sistema contra o qual imaginavam estar lutando.

Segundo a perspectiva de Pasolini, os protestos foram tão vazios e hipócritas quanto a marcha de Ida em Berlin. Exatamente porque a motivação não era um engajamento político genuíno, mas apenas mais uma demonstração das tendências da classe dominante que, segundo Pasolini, caracterizava a cultura jovem daquela época. Em certo ponto do poema Pasolini mostra como, ao atacar os policiais, os alunos (quem eram os filhos da classe dominante) na verdade estavam atacando os pobres que pretendiam defender. Alguns fragmentos do poema de Pasolini (5):

“(...)Ontem no Valle Giulia, quando vocês brigavam
com os policias, eu simpatizava com os policiais!
Porque os policiais são filhos de gente pobre (...)”


“(...)No Valle Giulia, ontem, tivemos assim um fragmento da luta de classes: e vocês, meus amigos (embora do lado da razão), eram os ricos, enquanto os policiais (que estavam do lado errado) eram os pobres. Bela vitória, portanto, a de vocês! Nestes casos, aos policiais se dão flores, meus amigos. Popolo e Corriere della Sera, Newsweek e [Le] Monde (6) puxam o saco de vocês. Vocês são os filhos deles, a sua esperança, o seu futuro: se repreendem vocês, não estão por certo se preparando para uma luta de classes contra vocês! Quando muito, trata-se da velha luta intestina. Para alguém, intelectual ou operário, que está fora dessa luta, é divertidíssima a idéia de que um jovem burguês encha de pancadas um velho burguês, e de que um velho burguês mande para a cadeia um jovem burguês. Paulatinamente os tempos de Hitler estão voltando: a burguesia gosta de se punir com as próprias mãos (...)”




“(...)Vocês ocupam as universidades,

mas suponham que a mesma idéia ocorra
a jovens
operários.
Nesse caso, o Corriere della Sera e
Popolo, Newsweek e [Le] Monde procurariam com
a mesma solicitude compreender os
problemas deles?(...)”



“(...)Se querem o poder, apossem-se pelo menos do poder de um Partido que é, todavia, de oposição (embora deteriorado pela autoridade de senhores de terno discreto, jogadores de bocha, amantes de lítotes (7), burgueses da mesma geração de seus pais estúpidos) e tem como objetivo teórico a destruição do Poder. Duvido muito que ele, entretanto, se decida a destruir aquilo que de burguês ele contem em si próprio, mesmo com a ajuda de vocês, se é que é verdade, como eu dizia, que filho de peixe peixinho é... De qualquer maneira:
o PCI aos jovens! (...)”



Além disso, as manifestações confirmavam para Pasolini que, tanto as gerações jovens quanto as velhas, haviam sido capturadas pela mentalidade consumista e que nenhuma das duas tinha noção do que seria uma vida autêntica. Pior ainda, no final dos anos 60 do século 20, Pasolini quase não conseguia distinguir entre a Esquerda e a Direita.

“Aqui [no poema O PCI aos Jovens!], Pasolini abertamente explode a geração mais jovem por sua hipocrisia. Ele os vê como um grupo de adolescentes conformistas mimados, que se orgulham com uma vitória improdutiva. Uma vez que a polícia – quem em teoria denota a autoridade e o Estado que os estudantes veementemente ofendem – era [composta], na prática, [pelos] despossuídos das regiões do sul [do país, que não tiveram acesso ao sistema educacional], os estudantes estavam, na verdade, batendo e brigando com os ‘sem nada’ ou ‘outros’ a quem o PCI supunha apoiar e defender”. (8)

É neste mesmo sentido que devemos compreender o ativismo político de Ida, que desejava urinar no muro de Berlin em 1968 juntamente com seus amigos ativistas políticos. Paradoxalmente, a rebelião de Ida consolida sua postura conformista, enquanto a rebelião de Julian o exclui como um Outro, um louco, um desviante. As ações de Ida solidificam seu lugar no seio da maioria, enquanto as ações de Julian solidificam sua renúncia ao seu lugar privilegiado na maioria.

Julian será comido pelos porcos, mas isso será mantido em segredo pela família, pois sua morte é muito extrema para ser reconhecida como uma mensagem profundamente humana e significativa. Além disso, como na catatonia de Odetta em Teorema, a sociedade burguesa rejeita categoricamente qualquer movimento em direção à autenticidade. “Então Julian é esquecido, Ida desaparece no vazio, e toda esperança por um futuro brilhante e construtivo é perdida ou consumida” (9).


Notas:

Leia Também:

Ettore Scola e o Milagre em Roma
Ettore Scola e o Filme Dentro do Filme
Mussolini e a Sombra de Auschwitz

1. RYAN-SCHEUTZ, Colleen. Sex, the Self, and the Sacred. Women in the Cinema of Pier Paolo Pasolini. Toronto: University of Toronto Press, 2007. P. 115.
2. Collen Ryan-Scheutz retira estas frases do roteiro original. Entretanto, não esclareceu aos leitores de seu livro que estas frases que ela utilizou só podem ser encontradas aí, e não no filme. No roteiro, publicado pela editora Mondatori (2001), o trecho pode ser encontrado no primeiro volume, página 1126.
3. RYAN-SCHEUTZ, Colleen. Op. Cit., p. 118. Mesmo caso anterior, a segunda frase só pode ser encontrada no roteiro - este trecho se encontra também na página 1126 da edição citada na nota anterior.
4. Idem, p. 121.
5. O PCI aos Jovens! In AMOROSO, Maria Betânia. Pier Paolo Pasolini. São Paulo: Cosac & Naify, 2002. Pp. 88, 89-90, 91 e 95.
6. Os dois primeiros são jornais italianos, o quarto é francês e o terceiro é uma revista norte-americana.
7. Modo de afirmação por meio da negação do contrário. Ex.: Não é nada tolo (substituindo ‘é muito esperto’). Fonte: Novo Dicionário Aurélio.
8. RYAN-SCHEUTZ, Colleen. Op. Cit., p. 123.
9. Idem, p. 124.

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