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Roberto Acioli de Oliveira

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24 de out de 2008

Fellini e a Psicanálise I





Nada é mais honesto
do que um sonho


Federico Fellini (1)






Sonhar é Preciso (Mesmo que Seja um Pesadelo)

O mundo reflexivo de Fellini 8 ½ (Otto e Mezzo, 1963) deve muito ao encontro de Fellini com a psicanálise junguiana. Somando seu interesse pelo irracional, sua tendência a sonhar muito e o hábito de registrar seus sonhos, Fellini estabelece sua autobiografia como uma fonte inusitada de inspiração. O cineasta preferia Carl Jung a Sigmund Freud, porque o primeiro não definia o sonho como sintoma de uma doença, mas como uma ligação a imagens arquetípicas compartilhadas por toda a humanidade.

“O aspecto mais interessante das anotações de sonhos de Fellini é que elas estão claramente em dívida com o estilo das primeiras histórias em quadrinhos norte-americanas, com um toque das pinturas metafísicas de praças italianas de De Chirico do período art deco, além das caricaturas de Nino Za que Fellini admirava na juventude e imitou quando jovem. [Essas coisas] não somente se relacionavam com os temas óbvios que alguém poderia esperar encontrar na psicanálise (a sexualidade e a função da mulher na fantasia de Fellini) mas também enfatizavam problemas de ansiedade a respeito da criatividade artística”.(2)

Entre as características do estado de sonho estão a pouca relação causa/efeito, poucas conexões lógicas e, em casos como o de Fellini, cores vivas. Com a influência de Jung, Fellini se debruçou mais e mais sobre a irracionalidade em suas fantasias e imagens inspiradas em seus sonhos. Ele se descrevia como um convidado ou visitante nesse reino dos sonhos. Um visitante sempre é tomado por um sentimento de surpresa ao penetrar o reino dos sonhos – mesmo que sejam seus próprios sonhos. Nas palavras de Fellini, “nada é mais honesto do que um sonho”. (imagem acima, sentado, Guido está fisica e visualmente sufocado pelas críticas de Daumier à seu roteiro de filme. Curiosamente, Daumier está de branco, cor com que todos os personagens da vida de Guido apareceram no final do filme de Fellini; abaixo, à esquerda, na estação de trem, Guido recebe Carla, sua amante)

Atraído por seus sonhos a partir de 1961, As Tentações do Dr. Antônio (Le Tentazioni del Dottor Antonio, 1962) é o primeiro resultado. Como uma resposta bem humorada aos ataques que A Doce Vida (La Doce Vita, 1959) havia sofrido, o filme mostra a sexualidade reprimida de um puritano e sua obsessão por um outdoor que associa o hábito de beber leite aos seios de uma loura gigante que sai do cartaz e passa a persegui-lo. Se Fellini havia acabado de dirigir seu primeiro filme colorido, Fellini 8 ½ volta ao preto e branco. O filme mostra uma luz expressionista que consegue captar a essência da qualidade irracional do estado de sonho (3).

Alguns elementos de As Tentações do Doutor Antônio ressurgem em Fellini 8 ½. Doutor Antônio dá lugar a Guido Anselmi, e o tom satírico do personagem anterior dá lugar à fantasia de um diretor que está no meio de uma crise de inspiração e criatividade – não muito diferente daquela que o próprio Fellini experimentou no início dos trabalhos com o filme. Fellini 8 ½ conta a estória de Guido, um diretor que não sabia mais que filme ele queria fazer. A sexualidade também tem um papel decisivo neste filme, embora com outro enfoque. O estado de sonho presente em As Tentações do Doutor Antônio também está em Fellini 8 ½. Entretanto, isso não quer dizer que esse filme é sério, enquanto o anterior era cômico. Fellini 8 ½ segue um estilo cômico também, sendo conhecida a observação que Fellini escreveu em uma fita adesiva colocada em uma câmera: “lembre-se que este é um filme cômico”.

Combinando muitos episódios particulares no interior de uma narrativa, Fellini foge completamente do modelo hollywoodiano de contar estórias. As cenas são articuladas por seqüências de sonho e fantasia. Fellini pula do mundo real às fantasias utilizando um estilo cômico que mostra sua recusa em reduzir um trabalho de arte a uma mera mensagem com conteúdo ideológico. “Para Fellini, o cinema é primeiramente um meio visual cujo poder emotivo se dá através da luz, não das palavras” (4). (imagem ao lado, entre os muitos delírios de Guido que Fellini nos mostra, um deles é um encontro entre sua esposa e sua amante, que se tornam amigas)

Fantasia e Criatividade



“Existem alguns truques, mas
há também algo de verdadeiro.
Eu não sei como acontece,
mas acontece” (5)

O telepata Maurice explica a
Guido como faz sua mágica.




A narrativa de Fellini 8 ½ envolve a visualização do próprio processo de criação. Mas Fellini não analisa teórica ou ideologicamente esse processo. Ele está interessado em mostrar imagens do processo e as poderosas emoções de sua comunicação bem sucedida com a platéia. Como ele mesmo declarou: “eu não quero demonstrar nada; eu quero mostrar”. Tudo, na vida profissional e afetiva de Guido, mostra a atuação do irracional na criatividade artística. A edição do filme é feita de forma que não consigamos estabelecer um sentido de espaço e tempo. A câmera sempre mantém Guido dentro do quadro, enquanto os outros personagens movem-se livremente para dentro e para fora dele. Grande parte dos personagens possui os próprios nomes dos atores que os interpretam, o que explode novamente a linha entre ficção e realidade (6). (imagem acima, à esquerda, Guido e Maurice o telepata; abaixo, Cláudia, a inalcansável mulher ideal de Guido)

Na seqüência do cemitério, enquanto é repreendido por seu pai, Guido é beijado por sua mãe – que se transforma em sua esposa Luisa. Temos então o complexo de Édipo indicando a complexidade de sua relação com as mulheres. Noutra seqüência de sonho, Guido está em sua infância, onde ele é cuidado por um grupo de mulheres. A frase que Guido repete, asa nisi masa, remeteria a anima - conceito que Jung havia definido em seu trabalho de 1926, “casamento enquanto relacionamento psicológico”. Jung argumenta que a maior parte do que o homem sabe em relação à mulher é distorcido e derivado das projeções da sua própria alma (7).

Guido nos apresenta Saraghina, uma prostituta que vive na praia. Em sua infância, Guido e seus amigos pagavam para que ela dançasse. Os padres do colégio onde estudava descobrem essa aventura e incutem em Guido uma conexão entre mulher, sexualidade, vergonha e culpa. A partir daí, Guido divide as mulheres em virgens e prostitutas. Já adulto, casa-se com o primeiro tipo (Luisa), mas toma o segundo tipo como amante (Carla). Ele vê o sexo como uma transgressão, não como uma relação entre iguais. A Igreja, encarnada na pessoa de um cardeal, é a instituição que projeta essa visão a partir da educação católica. Noutro de seus passeios pelo subconsciente, Guido imagina um encontro cordial e feliz entre sua esposa e sua amante. Em seguida, caímos noutro de seus delírios, a famosa seqüência do harém. (imagem abaixo, a Igreja é uma constante em Fellini)

Como um rebanho, as mulheres de sua vida lhe dão um senso de superioridade ao servi-lo. Mesmo a rebelião delas, todas as noites, permite que Guido re-assegure sua dominação. Fellini mostra as fantasias de Guido como visualizações das fontes de toda criatividade artística. Sempre fontes da infância. Primariamente imagens visuais e não idéias articuladas por livre associação no presente, essas imagens entram no fluxo de consciência desordenadamente. Fellini 8 ½ mostraria como essas imagens se misturam em nossas vidas. Um pensamento crítico, de tipo NÃO acadêmico, é o que é preciso para ordenar esse material (8).

Fellini cria o personagem de Daumier, um crítico francês que destrói todas as intenções do roteiro do filme de Guido porque a coisa toda não está articulada com lógica. Na seqüência final, Guido se liberta de Daumier ao ser chamado por Maurice, o telepata. Guido retoma a ligação com sua arte através de suas emoções, não de seu intelecto. Ele aceitará a si mesmo com todos os defeitos: “Eu como sou... e não como gostaria de ser. E isso não... me assusta mais”. Fellini deseja mostrar que a criatividade artística surge de emoções e não dos elementos filosóficos ou ideológicos propostos por Daumier. (imagem abaixo, à direita, na seqüência final vemos Guido ordenando os personagens de sua vida de mãos dadas em torno de um picadeiro. Nesta cena, vemos que ele escolhe a esposa e não a amante para levar a seu lado na procissão ao som de música de circo. Na imagem em seguida, vemos Guido quando criança, último a deixar o picadeiro no final do filme)

Todas as críticas que (na vida real de Fellini) se faziam às temáticas fellinianas estão no discurso de Daumier. Quando Maurice anuncia que estão todos prontos para começar, estamos falando do filme de Fellini e não do de Guido. Se antes Fellini mostra a incapacidade de Guido realizar um filme, agora dramatiza a descoberta de Guido de que a aceitação de si mesmo representa a chave de seus problemas psicológicos, assim como o segredo da criatividade artística. Na cena final, quando todos os personagens do filme de Guido e a equipe de Fellini desceram a escada da torre e dançam em torno do picadeiro é Luisa, sua esposa, que está a seu lado.

Apenas duas ausências, Daumier e Cláudia, a mulher ideal de Guido. Muitos estão vestidos de branco (os parentes de Guido, sua amante Carla, Saraghina, entre outros), significando que foram purificados na mente de Guido através de sua auto-aceitação. No final do final, à noite, Guido aparece como o garoto de escola de padres que foi um dia, quando pagava para ver Saraghina dançar. Naquela época, seu uniforme era preto, agora ele está de branco – como uma memória do passado que se purificou (9). Guido retorna a sua infância, a fonte de sua inspiração artística. Enfim, Fellini coloca o foco da criatividade no indivíduo e suas fantasias:


“Eu acredito – por favor, note, eu estou apenas supondo – que o que me importa mais é a liberdade do homem. A libertação do homem individual em relação à rede de convenções morais e sociais nas quais ele acredita, ou nas quais ele pensa que acredita, e que o confinam e o limitam e o fazem parecer mais limitado, menor, às vezes até pior do que ele realmente é. Se você realmente deseja que eu seja um professor, então condense isso nestas palavras: seja aquilo que você é, quer dizer, descubra-se, de forma a amar a vida”. (10)



Notas:

Leia Também:

Ettore Scola e o Milagre em Roma
Ettore Scola e o Filme Dentro do Filme
Mussolini e a Sombra de Auschwitz

1. BONDANELLA, Peter. The Films of Federico Fellini. UK/US: Cambridge University Press, 2002. P. 96.
2. Idem, P. 94.
3. Ibidem, p. 97.
4. Ibidem, pp. 98-100.
5. Ibidem, p. 115.
6. Ibidem, p. 102.
7. Ibidem, p. 103-4.
8. Ibidem, p. 105.
9. Ibidem, pp. 110-11.
10. Ibidem, p. 119.

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