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Roberto Acioli de Oliveira

Arquivos

11 de mai de 2010

Os Malditos de Visconti (I)




(...) O que
sempre me
interessou [foi a]

análise   de  uma
sociedade
doente”


Luchino Visconti




Os Podres Poderes da Família

O clã dos von Essenbeck é dono de um grande império siderúrgico na Alemanha durante os primeiros anos da ascensão de Hitler. Eram importantes demais para que o ditador ignorasse a importância deles na consolidação de seu próprio império. Sem a indústria do aço, muitos não se dão conta, pouco é possível fazer numa sociedade industrial. Não há indústria de bens de consumo que possa prescindir do aço, nem guerra que se possa fazer sem ele... Portanto, Hitler tinha que trazer os von Essenbeck para seu lado. Como foi o caso entre muitos alemães, nessa família existia simpatia pelas idéias de Hitler. (imagem acima, Martin von Essenbeck, depois de passar alguns momentos escondido debaixo da mesa como uma menininha)

“Nunca os
delitos    privados
foram tão possíveis, nos tempos modernos, como naquele período a que
nos referimos (...)

Visconti (1)

Uma controversa alusão à família Krupp, reais imperadores do aço na Alemanha do mundo real já há séculos, subjaz aos von Essenbeck (imagem acima, Joachim von Essenbeck, assassinado no dia de seu aniversário por um complô que partiu de dentro da própria família; muito está em jogo para os negócios do clã Essenbeck agora que Hitler subiu ao poder na Alemanha e precisa das siderúrgicas para construir seu império). Acompanhamos seu cotidiano, suas disputas internas por dinheiro e poder sendo atropeladas pela sede de poder do Partido Nacional-Socialista de Adolf Hitler. Em Os Deuses Malditos (La Caduta Degli Dei, 1969), Luchino Visconti nos fornece uma descrição detalhada (2) do caráter das peças desse tabuleiro de xadrez:



Frederich   é   o
típico ambicioso com
autopiedade.  Destrói os
outros,      mas    sentindo
pena  de   si  mesmo
pelo que fez




Frederich Bruckman é inteligente, tem iniciativa e agressividade: um verdadeiro dirigente (imagem acima). Por conta disso, o patriarca lhe confia tarefas delicadas na gestão das usinas siderúrgicas Essenbeck. Frederich é ambicioso, pretende (e nisso não está sozinho) um dia chefiar a empresa. Seu ramo dentro da família não tinha prestígio, o que marcou sua infância com humilhações. Mas a ausência de preconceitos permitiu que Frederich fizesse carreira. É capaz de tudo, embora ainda tenha “freios morais” que o impedem de violar determinadas regras. Sofia von Essenbeck é sua noiva. Descende da aristocracia, mas, segundo a mentalidade dos prussianos e dos alemães do norte, é considerada uma meridional: quase uma “latina” – de fato, em suas veias também corre sangue italiano. É ainda mais ambiciosa que o marido, mas sem os freios morais dele. Socialmente, seu casamento não é conveniente, razão pela qual ela sempre o incentivou a progredir a qualquer custo – para que pudesse usufruir do poder da posição dela. No final, ela consegue casar-se com Frederich, apenas para logo em seguida suicidar-se com ele, por ordem de Martin. Joachim von Essenbeck é tio de Frederich, o velho é o grande patriarca da indústria familiar e a governa como se fosse um reino. Detém a maioria das ações, portanto toma decisões sem consultar os parentes. Está doente e ainda se ressente da morte de Thomas, seu único filho, na Primeira Guerra Mundial. Todos são obrigados a venerar sua memória, aliviando um sentimento de culpa que, muito eventualmente, se manifesta nessa família cuja riqueza é fruto das grandes encomendas bélicas.


O  incesto  será  o começo

do  fim  de  Sofia, que será
arrastada  para  o  suicídio
por Martin (e ela mesma);
destino  atroz  da viúva do
herói de guerra da família.



Martin é filho de Sofia, neto do velho Joachim e seu único descendente direto. A descrição da personalidade desse personagem feita por Visconti é bastante complexa e contraditória. Martin está para completar 21 anos, mas daria no mesmo se tivesse apenas 15 ou 85; pois se alternam nele uma infantilidade tediosa e maligna e uma senilidade inconstante e diabólica – e isso é o que o torna ao mesmo tempo indefeso e perigoso, exaltado e desencantado, divertido e cansativo. Com a morte do avô, herdará a maioria das ações. Mas todos têm a sensação de que ele delegará as tarefas do mundo dos homens a quem lhe permitir continuar em sua cômoda vida de ricaço sem responsabilidades reais – uma postura curiosa, quando sabemos que foi criado pelo avô, que sabia o que Martin herdaria um dia. (imagem acima, à direita, Sofia)

Joachim e Konstantin,
dois irmãos
. De um lado
o empresário, calculista e
objetivo,    do    outro   um
boçal  útil   prestes  a  ser fuzilado      por      Hitler.
 Ambos    com     grande 
sede      de      poder


Konstantin von Essenbeck é o irmão mais novo de Joachim (imagem acima, à esquerda). Gordo, glutão, bastante capaz como dirigente da indústria. Possui uma quota de ações equivalente a de Frederich, de quem é rival. Não tem um perfil de homem de ação ou político (que Frederich possui), mas é ligado a alguns chefes das SA, o que é conveniente para Joachim. É o pai de Gunther, por quem demonstra desgosto. Seu filho, ao contrário, não aspira privilégios ou poder dentro da empresa. Mantém laços estreitos de amizade com Herbert Thalmann, pertencente ao ramo inglês da família. Herbert vive na Inglaterra, só aparece nas reuniões familiares e não aprecia Hitler.


“Aschenbach
produz palavras
.
Você produz

canhões”

Comentário de Sofia à Frederich,

quando Aschenbach recusou um
pedido dela para dar poder total ao

marido na empresa. Seria muito
poder concentrado em uma só
pessoa, argumentou o nazista


Na mesma noite do aniversário do velho Joachim acontece o controverso incêndio no Parlamento alemão – culparam-se os adversários comunistas, mas sabemos que foi Hitler. Joachim anuncia que, por força das circunstâncias, é necessário que alguém com relações entre os nazistas assuma a fábrica. Herbert se altera e expõe toda a sua tese contra os nazistas. Durante a noite, os nazistas invadem a residência dos von Essenbeck em busca dele. Frederich corre para avisá-lo, mas impede-o de levar sua arma. Entrementes, Joachim é encontrado morto, encontram também a arma de Herbert. (imagem acima, Aschenbach, o nazista que sobreviverá a Konstantin)




O espetáculo
dantesco das fogueiras

de livros será assistido
por Gunther





Aschenbach é um parente distante de Joachim, olha o mundo com ironia e desprezo, sempre chegando à conclusão de que o nazismo é o futuro da Alemanha e já estava inscrito no passado da pátria. Antes de a noite começar, já havia assegurado seu apoio a Frederich – Aschenbach já sabia que “os comunistas” iriam incendiar o Parlamento. Martin, já sendo pressionado por Konstantin, nomeia Frederich presidente empresa. Konstantin usou contra Martin o fato de saber sobre Lisa – uma menina que se matou depois que Martin exerceu seus impulsos pedófilos. Depois da morte de Konstantin na Noite das Longas Facas, Aschenbach esclarece a Martin que sabe sobre a menina também. Martin se desespera e Aschenbach utiliza isso em proveito próprio e do Partido Nazista. As palavras dele para Martin: “Acalme-se, eu não o trouxe aqui para chantageá-lo. Konstantin já tentou e isso não lhe trouxe nenhuma sorte. (...) Você, o filho de um herói, o verdadeiro herói, o único von Essenbeck… apenas porque uma judiazinha teve o mal gosto de se enforcar. Você não sabia? Judia. De acordo com a Nova Ordem, você nem cometeu um crime”.




“Nada   é
impossível
nesse país”

Sofia, referindo-se a
Alemanha (Nazista?)






Konstantin percebe que a morte de Joachim foi tramada e se retira – como membro das SA, ele não terá muito mais tempo de vida. Antes de tudo acontecer, Herbert comentou com sua esposa que se Hitler não tivesse vindo da classe baixa, Joachim já teria aderido a sua política. Aschenbach confirma isso ao avisar Frederich, depois deste assumir a fábrica, que existe uma intranqüilidade entre os nazistas porque Joachim não chegou a contribuir com dinheiro – como já haviam feito os outros industriais. Visconti conclui a descrição da personalidade deste nazista de forma ameaçadora, afirmando que ele “sabe dar às suas palavras o obscuro fascínio da profecia”. (imagem acima, à esquerda, queima de livros incitada pelo biblioclasta Adolf Hitler; acima, à direita, Sofia tenta sem sucesso convencer Aschenbach a apoiar Frederich a tomar o poder nas empresas do velho Joachim; eles caminham dentro dos arquivos da Gestapo, a polícia secreta de Hitler)

Família, Alemanha e Decadência




“(...) Durante o nazismo, ocorreram 

 massacres,   assassinatos,  tanto  em 
massa  quanto  pessoais,  que ficaram
absolutamente    impunes.    Por    isso,
ambientei a história desta família, que
devia  ser  a  história   dos  industriais
do  aço,   na  Alemanha,   quando  do
surgimento   do   nazismo    (...)” (3)




Entre outros, Os Deuses Malditos foi um dos filmes dirigidos por Luchino Visconti que evidenciam sua fascinação pelo potencial dramático das famílias. O filme é parte da chamada Trilogia Alemã, incluindo Morte em Veneza (Morte a Venezia, 1971) e Ludwig (1972). Nos três filmes, Visconti examina as raízes do surgimento do Nacional Socialismo na Alemanha da República de Weimar através de seus desastrosos efeitos numa família aristocrática (1º filme); a decadência a partir da adaptação de obra homônima de Thomas Man (2º); e a psique de Ludwig II da Baviera, o “rei louco” e excêntrico patrono de Richard Wagner (3º) (4). O próprio Visconti define seu objetivo:

“Eu conto estas estórias sobre autodestruição e dissolução de famílias como se eu estivesse narrando um Réquiem... Tenho uma opinião elevada da ‘decadência’, assim como, por exemplo, Thomas Mann teve. Fui impregnado desse espírito: Mann foi um decadente de cultura alemã, eu, de formação italiana. O que sempre me interessou é a análise de uma sociedade doente” (5)

Stefano Roncoroni perguntou a Visconti por que não fez da Itália o cenário dessa história de “monstros”. O cineasta disse que certamente em muitos casos o fascismo foi também uma tragédia, mas que o nazismo havia sido muito mais trágico. O nazismo, afirmou Visconti, foi capaz de muito mais crueldades, certo tipo de criminalidade que o tornou muito mais significativo para o mundo inteiro. Já o fascismo, só teve influência na Itália e Albânia. O nazismo foi uma ópera, comparou Visconti, enquanto o fascismo foi uma opereta. O fascismo, concluiu, foi mais uma comédia do que uma tragédia (6). (imagem acima, Aschenbach assiste calmamente a mais uma discussão em família: dividir para conquistar)

Influências e Estereótipos Malditos 



Incesto,
pedofilia, intrigas,
ving
anças, comércio de
armas
, homossexualismo:
a burguesia industrial
alemã segundo
Visconti
(7)




Os Deuses Malditos
com aquela família degenerada, e Morte em Veneza, com aquele homossexual, foram sucessos de bilheteria. Entretanto, receberam uma acolhida extremamente hostil na imprensa, que se baseou na noção equivocada de que a representação da decadência na tela era o sinônimo de uma sugestão para que continuasse. Embora a dissolução da família von Essenbeck na década de 30 em Os Deuses Malditos represente os Krupp, fabricantes de armas que na vida real se uniram a Adolf Hitler, Peter Bondanella sugeriu algumas fontes culturais e literárias da obra. O banquete da seqüência inicial remete ao capítulo de abertura de Buddenbrooks, de Thomas Mann. As complicadas relações entre Sofia, Martin e Frederich mostram a influência da Tragédia Grega, Macbeth, de Shakespeare e Wilhem Reich em sua hipótese da relação entre fascismo e homossexualidade. Crepúsculo dos Deuses (Götterdämmerung), o subtítulo do filme (fora do Brasil) aponta para atmosfera da ópera de Wagner.



De Luchino
Visconti a Pier Paolo
Pasolini
,  de  Roberto Rossellini
 à Ettore Scola
, a sexualidade foi 
problematizada  nas
telas
italianas




Com a Trilogia Alemã, Visconti foi um dos responsáveis pela emergência do homossexualismo nas telas dos cinemas italianos. Pier Paolo Pasolini já o havia feito em 1968, com Teorema. Em 1970, Bertolucci apresentaria sua contribuição com O Conformista (Il Conformista, 1970). Entretanto, ao ligar os nazistas e o homossexualismo, Os Deuses Malditos estabeleceu um padrão freqüentemente repetido na década seguinte. De acordo como Bondanella, trata-se de uma conexão completamente gratuita, talvez encorajada pela pedofilia presente em Alemanha Ano Zero (Germania Anno Zero, direção Roberto Rossellini, 1948) ou ainda pelos escritos de Reich. Um padrão que foi quebrado por Ettore Scola com Um Dia Muito Especial (Una Gionata Particolare, 1977), que apresenta um intelectual antifascista e homossexual.


Röhm,
o homossexual
e ganancioso chefe das
SA
não  via  porque  sua
opção   sexual   poderia desqualificar
seu
trabalho



Para Visconti (ele próprio homossexual), esta opção sexual não incorpora apenas qualidades ruins (Os Deuses Malditos), mas também boas e artísticas (Morte em Veneza e Ludwig). Lembramos aqui das opiniões do cineasta alemão Rainer Werner Fassbinder (também homossexual), um contemporâneo de Visconti, para quem era um erro não criticar os homossexuais, tanto quanto seria apenas criticá-los. Fassbinder os via como pessoas normais, capazes do melhor e do pior – opinião que lhe valeu muitas críticas por parte dos grupos de direitos dos homossexuais.



Os Deuses
Malditos
consolidou
a e
stética dos filmes com uniformes   e   cores
do n
azismo




Além disso, ressalta Bondanella, Os Deuses Malditos não deve ser entendido como uma análise sociológica ou psicológica séria da cultura alemã durante a República de Weimar. Algo que certamente, Bondanella enfatiza, não teria sido a intenção de Visconti. Seria mais correto, continua Bondanella, considerar a poderosa metáfora visual do filme para a natureza infernal da degradação moral nazista. A característica atormentada dessa sociedade surge imediatamente através do título do filme colocado sobre uma ardente explosão vermelha no alto-forno – certamente já apontando para aquilo que todos os guerreiros do século 20 precisam para seus jogos mortais: ferro, aço. Cor infernal que constantemente volta às telas – na suástica nazista, nos interiores com lareira, nas cenas de queima de livros, na cena de execução das tropas SA pela Gestapo e SS, ou ainda pelas tapeçarias que servem de pano de fundo para o macabro duplo suicídio no final do filme (8). (as quatro imagens acima mostram Martin fantasiado de Marlene Dietrich, numa apresentação durante o aniversário de seu avô Joachim, que se mostrou irritado; é curioso perceber que enquanto Ernst Röhm, o ambicioso chefe das SA, era criticado por seu homossexualismo, Martin será aceito nas fileiras de Hitler; talvez não seja um acaso que uniformes militares constituam uma espécie de fetiche entre algumas mulheres e alguns homossexuais)

Freud Explica 


“Não me parece
que  exista  nada  de
freudiano no filme
, com exceção   da   relação
entre mãe e filho”


Visconti



A cena do incesto entre Martin e sua mãe representa o último passo dele para conquistar o direito de ser um verdadeiro nazista. Com estas palavras Visconti justifica a cena. Primeiro, o nazismo havia escolhido Konstantin como vítima (violento, falastrão, brutal). Em seguida, o nazismo se serve de Frederich, um técnico com um grande defeito (a pretensão de querer raciocinar com a própria mente). Restou Martin, absolutamente inconsciente, um degenerado, um verme, sem fos reios morais de Frederich, tornando-se um instrumento sem vontade própria nas mãos dos nazistas.

Sua mãe, que jogou todas as fichas em Frederich, deseducou Martin, a quem ao mesmo tempo ama e odeia. Desde sempre, Martin planeja vingar-se dela. Depois de ser possuída por ele, explica Visconti, a mãe se entrega a uma regressão freudiana. Vai em busca de livros e brinquedos, sapatos e fotografias do pequeno Martin. Ela encontra cadernos com desenhos do filho, especialmente aquele onde está escrito: Martin mata a mãe (imagem acima). Com um traço de criança, vemos Martin com uma faca na mão e uma mulher ensangüentada (9).

Notas:

Leia também:

Os Biblioclastas (I), (II), (final)
O Cinema e o Passado: O Caso do III Reich (I), (II), (final)
Conexão Nibelungos: O Caso Fritz Lang (I), (II), (epílogo)

1. VISCONTI, Luchino. Os Deuses Malditos. Tradução Joel Silveira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira S.A., 1970. P. 31.
2. Idem, pp. 33-8.
3. Ibidem, p. 3.
4. BONDANELLA, Peter. Italian Cinema. From Neorealism to the Present. New York/London: Continuum, 3ª ed., 2008 [1983]. Pp. 199, 203.
5. Idem, p. 203.
6. VISCONTI, Luchino. Op. Cit., p. 5.
7. Idem, p. 31.
8. Ibidem, pp. 204-6.
9. Ibidem, pp. 18-9. 


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