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Roberto Acioli de Oliveira

Arquivos

22 de jun de 2011

Rossellini e Sócrates em Atenas





“Raciocinar
de forma lógica
foi um atentado
à moralidade
da época
(...)

Roberto
R
ossellini (1)

Como ser Honesto e Não se Matar?

Os atenienses foram vencidos por Esparta e o tirano Lisandro ordena que se derrubem os muros da cidade. A cidade se curva ao novo poder e doravante será governada por trinta tiranos impostos por Esparta. Entre eles, o mais cruel, Crítias, é um antigo discípulo de Sócrates. Aos setenta anos, Sócrates é um homem cansado, mas com uma língua afiada. É capaz de sair de casa para comprar pão e só votar dois dias depois, enquanto sua esposa e seus dois filhos esperam pela comida. Ele se sente livre naquela situação, embora não goste de saber que o novo governo colaboracionista condenou muitos à morte sem nenhum julgamento. Sócrates é afrontado em plena rua por atenienses que não compreendem seu modo de pensar e por sofistas, que ensinam pessoas eventualmente sem talento (políticos) na arte da retórica e cobram pelo serviço. Sócrates, pelo contrário, afirma que só sabe que nada sabe e não cobra nada de seus discípulos.




Xântipe, a esposa,
não suportava mais a irresponsabilidade de
Sócrates em casa




Meleto acusa Sócrates de não respeitar os deuses e corromper a juventude. Durante o julgamento, seus argumentos lógicos derrubam uma a uma as acusações ao demonstrar o caráter ilógico delas. Julgado, o filosofo é considerado culpado e condenado à morte. Segundo o costume, é permitido a ele que escolha entre o exílio ou o pagamento de uma grande soma em dinheiro. Mas Sócrates prefere a morte, já que estaria sendo contraditório consigo mesmo e com as idéias que professa. Ele acredita que o uso da razão o levará sempre mais próximo da verdade, não assumir os desdobramentos dessa opção e fugir ou trocá-la por dinheiro seria assumir o mesmo comportamento que ele questiona – e que supostamente o levou a ser acusado e condenado por cidadãos atenienses escolhidos ao acaso. Seus discípulos subornam os guardas para que ele possa fugir, mas Sócrates insiste em não trair as leis da cidade e aceita serenamente beber a cicuta. Caminha para lá e para cá até que o veneno faça efeito, então se deita e morre.(imagens acima, à esquerda, Sócrates bebendo a sicuta; à direita, Xântipe esculacha seu marido)

Outro Capítulo da Enciclopédia




Rossellini
acreditava q
ue a
televisão ia salvar
o mundo!




Sócrates
(Socrate, 1970) marca a metade da empreitada do cineasta Roberto Rossellini em sua enciclopédia histórica. Dentre os seis títulos seguintes concluídos antes da morte do cineasta, seriam realizados filmes sobre Blaise Pascal e René Descartes. Essa fase de sua obra, que se estende de 1963 a 1974, era direcionada à televisão e não foi muito bem recebida pela crítica especializada devido à mudança de estilo para um trabalho de caráter mais didático. Embora Rossellini ainda continuasse filmando como se estivesse fazendo cinema e não soubesse nada sobre televisão (2), foi para esse novo meio que ele migrou. Tendo feito essa opção num período em que esse meio de comunicação ainda não havia se transformado apenas num moderníssimo instrumento de trabalho para os chantagistas, utilizado quase exclusivamente para vender (e vender e vender, produtos nem sempre relevantes...), Rossellini acreditava numa “televisão didática”. Uma televisão que permitiria à educação ultrapassar as grades curriculares e os horários da escola.



Lá como cá,
o pessoal que usava
os músculos desprezava
o pessoal que insistia e
m
usar o cérebro
. Mas, e
se o cérebro for um
músculo?


De acordo com o próprio Rossellini, o fio condutor de Sócrates é a figura de um homem que tenta compreender, que procura desenvolver em si mesmo e nos outros a consciência de si e do mundo. Rossellini mostra como Sócrates e seus discípulos eram desprezados pelos atenienses, que os consideravam intelectuais ricos e moles – já que não eram atléticos e não se dedicavam nem à ginástica nem às armas... Rossellini concluiu que não podia ser diferente, pois isso sempre acontece com aqueles que não pensam como todo mundo. Para o cineasta, a única excentricidade de Sócrates foi sua insistência na busca da verdade e do saber, seu desejo de que os homens passassem a utilizar a própria inteligência e desenvolver suas faculdades críticas e poder fazer conscientemente suas escolhas. Sua excentricidade, Rossellini insistiu, foi recusar o título de mestre e acreditar na dialética, no diálogo e na força do saber. Em seu mundo, concluiu Rossellini, Sócrates era um revolucionário (3). (imagens acima, à esquerda, Sócrates durante seu julgamento; à direita, visão geral de Atenas)

Grécia de Rossellini

“’O sábio é
aquele que sabe
q
ue nada sabe’ é uma das afirmações mais profundas
e mais hones
tas que
um homem já
formulou”


Roberto Rossellini (4)

O cineasta italiano estava fascinado com a oportunidade de descrever a justiça e a democracia de Atenas. Sócrates foi julgado por quinhentos cidadãos escolhidos ao acaso dentre a população, e havia a preocupação de não fazer um filme inteiramente constituído de discursos de Sócrates. Ele falava muito, seguramente, mas Rossellini agradeceu o fato de que o filósofo falava de uma forma nem um pouco abstrata ou afetada. Rossellini ressaltou o emprego que o filósofo fazia da ironia, como quando sua esposa aos prantos disse que ele havia sido condenado à morte injustamente e ele retrucou: “gostaria de ver eu morrer justamente?”. Outra coisa que o cineasta disse a respeito de Sócrates foi que o fato dele construir seus pensamentos a partir das coisas da vida cotidiana tornou muito simples transformar em imagens o conteúdo de certos diálogos. Outro aspecto de Sócrates que chamou sua atenção foi o fato de não deixar testemunho escrito. Rossellini também acredita que a escrita imobiliza e congela o pensamento, e um pensamento parado é um pensamento morto.



Muitas palavras
são jogadas ao vento
,
às vezes para caluniar
,
plagiar
, mentir. Mas
só às vezes!




A cultura escrita, disse o cineasta (que escrevia muitos livros nessa fase de sua carreira), é um instrumento autoritário, não admite a contradição que o diálogo permite. A cultura oral, a que pertencia Sócrates, é, pelo contrário, dialética. Um instrumento de comunicação coletivo e, portanto, conclui Rossellini, democrático. Mas Rossellini admite que com o aumento do tamanho das cidades e da população tornou-se impossível aos cidadãos reunirem-se na ágora para discutir entre eles – não foi à toa, acrescentou o cineasta, que as primeiras questões em torno da acústica foram levantadas. Rossellini acreditava que os meios audiovisuais nos levariam de volta a essa cultura oral e à prática do diálogo! Mas o cineasta sabia que se pode empregar a eloqüência de forma autoritária, atitude que acreditava ser o contrário da de Sócrates, preocupado apenas que seus discípulos aprendessem a pensar de maneira independente.(imagens acima, à esquerda, a deusa Atena; à direita, Sócrates logo depois de saber das acusações contra ele)

Atenas Acusa Sócrates




Sócrates até admitiria
que
tudo foi criado pelos deuses, mas essa relação
devia ser mais racional




Sócrates foi acusado de corromper a juventude e ser impiedoso. Sua falta de piedade, explicou Rossellini, consistia na coerência racional do pensamento que questionava os deuses. Entretanto, concluiu o cineasta, raciocinar utilizando lógica foi um atentado à moral da época. O cineasta italiano tomou as dores do filósofo de Atenas e disse que, naquilo que concerne à acusação de corrupção da juventude, o que Sócrates realizou foi a difusão do espírito crítico. Nas palavras de Rossellini, “(...) é uma história dramática. A sociedade, toda sociedade, pode perdoar os assassinos: mas aqueles que pensam de maneira diferente, sem conformismo, terminam sempre sendo eliminados. Na história da humanidade, 99% dos condenados à morte foram executados por delitos de pensamento ou de opinião. O homem se empenha em sufocar e frear essa inteligência que é, entretanto, sua característica essencial” (5).(imagem acima, sacrificio de uma galinha para os deuses; Imagens abaixo, à direita, o destino dos opositores ao novo governo espartano de atenas; na última imagem, Sócrates na sala de sua casa recebendo a notícia das acusações contra ele)




Sócrates se pergunta
por que a escol
ha dos
governantes não utiliza
um método racional





À hipótese de que a verdadeira razão da condenação de Sócrates fosse a hostilidade dele à democracia ateniense Rossellini rebate afirmando que o problema do filósofo é que ele questionava a irracionalidade do processo. As pessoas eram escolhidas ao acaso, de acordo com a cor das favas (brancas ou pretas) que apanhavam em potes sem vê-los. Sócrates acreditava que seria melhor utilizar um método mais racional para governar a cidade. Como diz o filósofo em certo momento do filme, “se você tivesse que fazer uma viagem por mar, escolheria o piloto por sorteio? E o seu sapateiro, o seu médico, você os escolheria por sorteio? Veja bem, você não confiaria sua vida a um médico escolhido por sorteio, mas está pronto, sendo um bom cidadão a entregar seus negócios de Estado, nas mãos de um qualquer, talvez um coitado (...)”. Rossellini admite que talvez Sócrates tenha desejado confundir a questão, mas nessa hora o cineasta argumenta que não era possível colocar tudo no filme.




Aparentemente,
Sócrates morreu
porque ser desonesto
consigo mesmo é um
a
maneira irracional
de levar a vida




Algumas coisas não me interessam, disse ele de forma bem direta. Citou como exemplos o caso de Xântipe e Crítias. Não lhe pareceu relevante saber se a esposa de Sócrates era realmente uma harpia ou se foi apenas um apelido que os discípulos de Sócrates puseram em alguém não lhes agradava. Da mesma forma, Rossellini considerou irrelevante problematizar as relações de Sócrates com Alcebíades e Crítias, porque a homossexualidade era uma prática comum na civilização ateniense. Embora Rossellini houvesse dado como justificativa de sua enciclopédia histórica o fato de que devemos aprender com o passado (“a história não deve nos servir para celebrar o passado, mas para nos julgarmos e melhor nos guiar para o futuro” (6)), o cineasta insistiu a propósito de Sócrates que não pensou em fazer analogias com o mundo atual. Questionado sobre este filme não seria uma espécie de auto-retrato do cineasta aos 64 anos, ele admitiu sentir-se próximo ao personagem, especialmente na parte que fala sobre Sócrates jamais ter ganho um centavo (7).


Notas:

Leia também:

Rossellini e Sua Jornada Para a Índia
Rossellini e o Ventennio Fascista
Este Corpo Não Te Pertence: A Mulher Fascista
As Deusas de François Truffaut
Godard e a Distopia de Alphaville (I), (II), (III), (final)
Berlin Alexanderplatz (I), (II), (final)
Arte do Corpo: As Cabeças de Gehard Lang

1. APRÀ, Adriano (org.). La Télévision Comme Utopie. Roberto Rossellini. Paris: Cahiers du Cinéma, 2001. P. 161.
2. Idem, p. 163.
3. Ibidem, p. 158.
4. Ibidem, p. 159.
5. Ibidem, p. 161.
6. Utopia, autopsia 10, escrito por Rossellini em 1974. Ibidem, p. 9.
7. APRÀ, Adriano (org0. Op. Cit., p. 163.


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