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Roberto Acioli de Oliveira

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31 de mai de 2016

Barbara Steele: O Rosto Inglês do Horror Italiano


“É provavelmente como Norman Bates
se  lembra  de  sua  mãe  em  Psicose

Comentário de Phil Hardy evocando o filme de Alfred Hitchcock
(Psycho, 1960), referindo-se à expressividade do rosto da atriz 

Na opinião de Phil Hardy, mais do que qualquer outra, a imagem Steele é o emblema e o fetiche do gênero Horror no cinema (1). Carol Jenks se pergunta como isso foi possível para uma mulher que apareceu em apenas onze filmes de horror entre 1960 e 1968, nove deles italianos, lançados ao acaso fora deste país em versões cortadas, dubladas e que, segundo ela própria, dificilmente valeriam o suficiente para produzir um culto em torno. Além disso, continua Jenks, o que explica tal êxtase ambíguo, tal mistura de medo e desejo como resposta a uma imagem? Para Jenks, a palavra chave na observação de Hardy é “fetiche”: apenas a mulher pode constituir um objeto fetiche. Contudo, no contexto do Horror, Roger Dadoun sugere também a figura do vampiro homem, Conde Drácula, como sendo o falo materno encarnado, o substituto fetichista visível da mãe arcaica invisível ausente. Este último, Jenks sugeriu, é um ser mítico de importância crucial na tentativa de dar conta das teses em torno dos filmes em que Steele atuou - que constituem um subgrupo distinto no interior do universo do Horror italiano da primeira metade dos anos 1960. Embora Os Vampiros (I Vampiri, direção Riccardo Freda, 1957) possa corretamente ser classificado como um precursor italiano do gênero, foi o imenso sucesso e popularidade naquele país de O Vampiro da Noite (Dracula, também conhecido no Brasil como Horror de Drácula, direção Terence Fisher, 1958), do estúdio inglês Hammer Films, que levaria Mario Bava a realizar A Maldição do Demônio (La Maschera del Demonio, 1960), filme que estabelece a aura de Barbara Steele – Bava estava convencido de que o sucesso do filme inglês na Itália demonstrou que o publico italiano estava pronto para aceitar a “nova onda” do Horror (2). (todas as imagens são de La Maschera del Demonio, lançado no Brasil como A Maldição do Demônio)


“O próprio símbolo de Mulher enquanto
vingativo,  estranho  e  ‘outro’”  (3)

Até então uma atriz inglesa obscura que só era vista em pequenos papéis de filmes britânicos, Steele se torna o centro do foco da câmera de Bava em A Maldição do Demônio. Jenks explica que o rosto e o corpo de Steele pouco antes da desintegração do sistema de estúdios e na hora em que os tipos femininos disponíveis nos anos 1950 entravam em falência. Raymond Durgnat lamentou a incapacidade dos cineastas britânicos de explorar as possibilidades das atrizes e atores que não se “enquadram”, ao mesmo tempo em que parabenizou Bava, um autor convencional, por haver criado Steele como um pigmalião. Nos filmes ingleses dela, queixou-se Durgnat, revela-se apenas um rosto apenas superficialmente belo, não a “força chicoteante, espinhosa” deslanchada por Maldição, que o tornou hipnótico. Subitamente, o rosto de Steele se torna uma tabula rasa (como uma folha de papel em branco) a ser esculpida pelo jogo de luz e sombra. Para compensar o que ela considerava uma ausência de realismo psicológico nos filmes de horror, a atriz desenvolveu um estilo mimético de atuação, o que na opinião de Jenks a teria aproximado das características das divas. Dois exemplos seriam A Máscara do Demônio (I Lunghi Capelli della Morte, direção Antonio Margheriti, 1964) (onde ela deixa as cinzas de sua mãe escorrer de sua mão enquanto seu longo cabelo e longas mangas de seu vestido são açoitadas pelo vento) e Cinque Tombe per un Medium (em Portugal O Cemitério dos Mortos-Vivos, direção Massimo Pupillo, 1965) (a cena de sua morte, com uma caminhada hesitante pela sala e uma série de gestos espasmódicos). (imagem abaixo, pôster norte-americano de A Maldição do Demônio)

Fellini logo convidou Steele
para   atuar   em   8 ½   (1963), 
e a enigmática frase do ilusionista, 
asa nisi masa, é também referência
à  Asa,  a  morta-viva   que  precisa
 do  corpo  e  da  vida  de  Katia, 
em A Maldição do Demônio


Com o rosto de Barbara Steele, provavelmente é assim que Norman Bates, o personagem de Psicose (Psycho, 1960) (realizado por Alfred Hitchcock no mesmo ano de A Maldição do Demônio), se lembra de sua mãe (de quem só conhecemos o cadáver). Esta é a sugestão de Phil Hardy, invocando aqui a ideia da mãe primordial, arcaica, fálica, obsessiva. Para Jenks, o filme de Bava a tornou visível. O sucesso de Steele no filme de Bava foi tão grande que Federico Fellini a trouxe para o elenco de 8 ½ (Otto e Mezzo, 1963), como uma intelectual pedante que vive no mundo das aparências e termina fazendo parte do harém imaginário de Guido (famoso alter-ego de Fellini), onde parece satisfazer-se ao ser chicoteada durante uma rebelião das mulheres – naquele mesmo ano, Steele estrelaria Lo spettro de Dr. Hichcock, outro filme de terror do precursor do gênero, Riccardo Freda. Embora não se tenha encontrado referências, é quase certo de que o enigma asa nisi masa pronunciado na cena do ilusionista seja uma referência à Asa, uma das personagens de Steele (a morta-viva) em A Maldição do Demônio – Asa Vajda é o duplo de Katia, a outra personagem de Steele.

“Não há dúvida de que Steele foi construída como uma Medusa por seus devotos: o adjetivo francês preferido para seus cabelos foi vivante, evocando as cobras. O pôster norte-americano para Maldição (imagem acima) consistia de um desenho de seu rosto, a partir do qual seu cabelo ondula em ondas não naturalistas de marolas ‘serpenteantes’, e o slogan publicitário primeiro convida o público à ‘olhar para esses olhos’, e depois promete que o filme irá ‘paralisar você como espanto!’. Em Maldição, os close-ups extremos da paisagem de seu rosto, a inclinação de suas bochechas, seus olhos, por vezes olhando direto para a câmera, boca entreaberta e dentes se transformam numa abstração. A câmera parece se aproximar tanto porque quer se tornar um raio x, alcançar o crânio por baixo da pele. Em filmes posteriores, seu cabelo longo e denso estava cada vez mais arrumado, de forma a cair sobre as bochechas e cortar, por assim dizer, a forma de um crânio vivo a partir dos planos de seu rosto. Nos dois filmes que fez para Antonio Margheriti, A Máscara do Demônio [I Lunghi Capelli della Morte] e Dança Macabra (La Danza Macabra, 1964), ela faz uma mulher que está morta. Isto é revelado ao protagonista masculino depois que teve relações sexuais com ela. Em A Máscara, o homem está preso entre sua imagem materializada como um fantasma, que está impecavelmente bela, vestida em brocado branco e seu cabelo com pérolas, e seu apodrecido cadáver real cheio de vermes em sua tumba” (4)


Barbara   Steele   não   se   enquadrou   nos   papéis   periféricos
das mulheres  nos filmes de horror. De rosto irregular e olhos grandes,
conseguia atuar naturalmente, seja como vítima,  vilã, ou ambas

Barbara Steele se tornou a “Rainha do Horror” e uma figura cult da história do cinema. Marcia Landy enfatiza que Steele não era apenas um mero detalhe periférico de erotismo, mas o ponto central de todos os incidentes no filme – em pelo menos três filmes ela assume dupla identidade, A Máscara do Demônio, Amor de Vampiros [(Amanti d’oltretombe, direção Mario Caiano, 1965)] e Un Angelo per Satana, [(direção Camillo Mastrocinque, 1966)]. A atriz representou o elemento frágil que dá origem ao mal ou que o acorda depois de muitos anos, mas não deixo de aparecer em paródias de comédias do Horror como Os Maníacos [(I Maniaci, direção Lucio Fulci, 1964)]. Em sua descrição da chegada em Roma nos anos 1960, destino de tantos outros que pretendiam fazer carreira no cinema, Steele sabia que seu físico era muito diferente das concorrentes. Ela era grande, possuía todas as curvas e o cabelo escuro que eram requisitados, mas com o rosto muito diferente de uma boneca Barbie. Entretanto, foi justamente seu rosto e sua voz que chamaram atenção de cineastas como Bava – curiosamente, já que a dublagem sempre foi a prática do cinema italiano, pode-se dizer que ele ao mesmo tempo lhe deu uma chance e a manteve em silêncio. Steele detestava o estilo e a persona de atrizes como a norte-americana Doris Day, e sempre foi uma fã de filmes de terror e do sobrenatural – ainda que tenha trabalhado também com cineastas como Mario Monicelli e Fellini. Freda a descreveu como um ícone do Horror. Com seu rosto irregular e olhos grandes e negros que aumentavam o caráter sobrenatural de seus papéis, a versatilidade de Steele permitia que num filme ela fosse a vítima, no outro a assassina e ambas em muitos outros.  

“Se os melodramas dos anos 1950 investiram em conflitos entre retratos da feminilidade transgressores e subjugados, os papéis de Steele como ao mesmo tempo vítima e agressor eram atraentes em seu desafio visual para as concepções reinantes de feminilidade. [Nas palavras de Maggie Günsberg], seus retratos da feminilidade dividida funcionam, ‘tanto como uma profunda ameaça psíquica à masculinidade no interior de um quadro patriarcal, quanto, concomitantemente, ainda que menos abertamente, um gênero que também ameaça insurgir-se contra a hegemonia patriarcal em nível sociopolítico’. O estrelato de Steele pode ser comparado ao de uma diva. [Para Mark A. Miller], ela evoca a qualidade transgressiva e sinistra da diva; sua paixão sexual é transmitida através de olhos ‘que prometem requintado prazer sexual para seus amantes insuspeitos, mas com escorpiões por trás de seu olhar escuro prometendo atacar. No cinema de horror, seu rosto é, de fato, ambivalente... prometendo o amor e o mal simultaneamente’; e, mais significativamente, um convite para repensar o mundo da fantasia e do sonho” (5)


Leia também:


Notas:

1. HARDY, Phil (ed.). The Aurum Film encyclopedia, vol. 3, horror. London: Aurum Press, 1985. Citado em JENKS, Carol. Op. Cit., p. 149.
2. JENKS, Carol. The Other Face of Death. Barbara Steele and La Maschera del Demonio. In: DYER, Richard; VINCENDEAU, Ginette (orgs.). Popular European Cinema. London/New York: Routledge, 1992. Pp. 149-50, 152-8.
3. NICHOLLS, Peter. Fantastic Cinema, an Illustrated Survey. London: Ebury Press, 1984. Citado em JENKS, Carol. Op. Cit., p. 149.
4. JENKS, Carol. Op. Cit., pp. 158-9.
5. LANDY, Marcia. Stardom, Italian Style: Screen Performance and Personality in Italian Cinema. Indiana: Indiana University Press, 2008. Pp. 176-7.

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